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Os rios que a cidade esconde

Iniciativa Rios e Ruas sensibiliza moradores de São Paulo para os cursos d’água que correm vivos sob o concreto, sob o asfalto e nossos pés

Há mais de 300 rios, riachos, córregos e cursos d'água em São Paulo. (Foto: Arquivo Rios e Ruas)

Há mais de 300 rios, riachos, córregos e cursos d'água em São Paulo. (Foto: Arquivo Rios e Ruas)

POR ANA PAULA FERRAZ

“Não é possível caminhar por mais de 200 metros em linha reta em São Paulo sem passar por um curso d’água.” Esta afirmação contundente é do geógrafo Luiz de Campos Jr., que garante: na maioria das vezes, esse trecho é ainda menor. A avenida Paulista, por exemplo, que está na região central da cidade, longe das marginais dos rios Pinheiros e Tietê, tem nascentes a cada 50 metros. No Parque do Trianon, por exemplo, você encontra as nascentes do rio Iguatemi. Atrás do MASP, as do rio Saracura.

Quando soube disso, três anos atrás, o arquiteto e urbanista José Bueno ficou estupefato e quis fazer o teste perto de sua casa. Acompanhado por Luiz, partiu em uma expedição de bicicleta pelo Butantã, bairro onde mora. “Encontrei uma nascente num local pelo qual passava diariamente há dez anos”, conta o urbanista. “De carro, você não tem esse tempo do olhar.”

Após essa experiência, Luiz e José Bueno uniram-se para dar início ao Rios e Ruas, uma iniciativa cujo principal objetivo é sensibilizar os moradores da cidade para os mais de 300 rios, riachos, córregos, nascentes e outros cursos d’água que correm na cidade sob o concreto e o asfalto. “As pessoas não podem cuidar do que não sabem que existe”, justifica o geógrafo.

Expedidor retira tampa de galeria para ouvir o som do rio fluindo. (Foto: Rios e Ruas)

Explorador retira tampa de galeria para ouvir o som do rio fluindo (Foto: Arquivo Rios e Ruas)

“Como os rios não falam, nós só nos lembramos deles durante as enxurradas de verão ou quando o ar está muito seco, no inverno, que é como eles se manifestam”, diz o urbanista. Por isso, diz, “queremos levar as pessoas para colocar as mãos e ouvir essas águas”.

Para apresentar os rios aos paulistanos, a dupla organiza expedições espontâneas e gratuitas, divulgadas pelo Facebook . As atividades são sensoriais e buscam estimular os sentidos dos participantes. O primeiro sentido a ser requisitado é a visão: a presença de uma vegetação exuberante, com árvores frondosas, sem que haja alguém regando são fortes indícios de água. A presença de taioba, uma planta que só sobrevive em terrenos encharcados, é outra grande pista.

É possível ainda sentir na pele as áreas mais frescas e úmidas, que indicam a proximidade de um rio. E, ainda, após a chuva, com os ouvidos bem atentos, dá até para escutar um rio correndo sob uma galeria. “A busca pela água é instintiva no ser humano; podemos ficar semanas sem comer, mas não podemos sobreviver três dias sem beber água”, diz Luiz.

A redescoberta dos cursos

O rio Tietê, no início do século xx. (Foto: Rios e Ruas)

O rio Tietê, no início do século 20 (Foto: Arquivo Rios e Ruas)

Há menos de cem anos, os rios da cidade eram usados para o lazer. A represa de Guarapiranga era conhecida como a “riviera paulistana” e no Tietê era realizada a prova Travessia de São Paulo a Nado. No entanto, a partir da década de 30, quando surgiram as primeiras avenidas, os rios começaram a ser cobertos. Naquele tempo a cidade era pensada para a mobilidade de automóveis, e “os rios sumiram em menos de 70 anos”. Ele não condena as escolhas que foram feitas. “Todas as grandes cidades passaram por esse processo de domar os rios para que não impedissem o crescimento urbano”, diz o geógrafo.

Hoje, felizmente, o mundo vive um momento inverso. A tendência atual é reabrir os rios. A recuperação do rio Cheonggyecheon, em Seul, na Coreia do Sul, é uma referência mundial: o rio corria em um canal sob um viaduto que foi demolido. Com isso, o Cheonggyecheon foi aberto, suas margens voltaram a ser frequentadas pelos moradores e a comunidade ganhou um parque linear. E assim a região, antes degradada, teve sua paisagem restaurada.

Córrego Pirarungáua, no Jardim Botânico de São Paulo. (Foto: Rios e Ruas)

Córrego Pirarungáua, no Jardim Botânico de São Paulo (Foto: Arquivo Rios e Ruas)

Em São Paulo, já temos um exemplo de renaturalização de curso d’água. O córrego Pirarungáua, no Jardim Botânico, correu dentro de uma galeria por sete décadas. Em 2007, surgiu a necessidade de corrigir a galeria que o abrigava. Porém, sabiamente, um técnico sugeriu que a galeria fosse aberta, em vez de reparada. Hoje, o Pirarungáua conta com 500 metros de comprimento e voltou com tudo. “Ele está lindo, e a visitação do parque aumentou dez vezes”, informa Luiz.

Corrida sobre os rios 

Mapa hidrográfico da cidade São Paulo. (Foto: Rios e Ruas)
Mapa hidrográfico da cidade de SP (Foto: Arquivo Rios e Ruas)

Para 2014, a Corpore promoverá um circuito de quatro corridas de rua que sensibilizarão os corredores para a presença de rios e riachos sob a cidade. Além da corrida, serão realizadas intervenções urbanas assinadas por artistas que desenvolvem projetos relacionados a São Paulo. São eles: Eduardo Srur, Paulo von Poser, Carla Caffé e Zezão. “Após cada corrida, milhares de corredores vão voltar para casa sabendo da existência dos rios”, comemora José Bueno.

Dando nome aos rios

Há outras iniciativas em curso para dar visibilidade aos rios. Uma delas é um projeto de lei que está sendo cocriado com o vereador Ricardo Young para sinalizar a presença de nascentes e rios urbanos. Um outro projeto prevê a implantação de ciclorrotas ao longo de cursos d’água pela cidade.

“A gente perde muito em não ter mais contato com esses rios, a cidade é toda impermeabilizada”, defende o geógrafo. “Com mais cursos d’água abertos, a qualidade ambiental da cidade aumentaria muito.”

 

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